28 de out de 2011

outro dedo de cachaça
cessava o riso
e eu já podia ouvir a rima ruidosa e velha
de um rádio que penso ter visto em alguma casa da infância
sem poder precisar.

aquelas horas só me faziam analogias

o tempo brincava entre a mudez interrompida pela batida do copo. a mesa, vetusta, era oca; só o velho, recostado ao balcão, acostumara a distinguir entre pedidos, brigas e batidas de angústia. nem sei que barulho acabei por fazer. mas esse copo pequeno, de um rótulo que já prometeu nova vida nas luzes de um microondas, esse copo não faz estrago assim.

e a mesa era ruim, de um vermelho descolorido nas traças de um mapa; a mesa era ruim, a madeira era ruim; e essas horas todas, ruidosas. só o velho sabia bem que jeito tem cada amargura - e compartia, toda vez, outro vidro em pedaços.

não passa dia como esse sem marcar qualquer rosto

e eu notei, naquele olhar,
eu notei desesperadamente
o gosto amargo do álcool,
as rugas das mãos,
o vermelho da mesa
provando o gosto da dor.

e eu bebi a vida, devagar.

a vida, que o velho sabia,
tinha o cheiro da madeira
e o peso dos dias

a vida,
de uma cor rubra que insiste,
sobrevivendo a memórias,
pra ainda gritar.