2 de dez de 2013

noticiário

pretos e pobres entraram em um shopping
que como todos os shoppings
não levantou tijolos para pretos e pobres

celas foram fundidas para pretos e pobres
& também para aqueles brancos pobres
que o baiano já cantou que de tão pobres
são quase todos
pretos

muitos pretos, todos juntos,
ofendem as paredes
brancas: humilhem-nos
retirem-nos
chamem de averiguações

maltratem os pretos e pobres pelo crime imperdoável
de terem ultrapassado os partos
de suas mães pretas
de não terem calado ainda cheios

de sangue
de terem tocado tambores
de descerem os morros com seus funks

resguardem-nos do medo
que temos de pretos
e pobres
porque não nos importa se pretos e pobres
sabem do que é medo
se os pretos e pobres
não devoraram nossas sacolas
novas
como canibais
se os pretos e pobres cometeram qualquer coisa
porque afinal são pretos e pobres
e não há crime pior do que cometer ser preto
sempre preto e tão pobre

matem os pretos e pobres
não temos culpa se são todos pretos e pobres
são apenas pretos e pobres
todos pretos e pobres
pretos e pobres
pretos e pobres

8 de mai de 2013

traduzir o vidro
em um ônibus vetusto

incidir na amenidade
da sombra,
a maquiagem viciada,
duas ou três sacolas
desimportantes

abraçar o fim de tarde
em ruídos
como ontem

sentir a desordem
do corpo
das calçadas

essas feridas truncadas
essas horas de asfalto
esses bancos tão duros
como tudo

19 de abr de 2013

inventário

catapora, dor
de dente,
quatro pés na bunda,
duas bicicletas,
máquina de lavar
roupas,
dezesseis poemas

vinte e quatro
anos

e posso dizer
que consegui, na vida,
uma janela - pequena
vista para o mundo,
carregar
esta pena.

16 de abr de 2013

procurava ocupar o vazio
da estante
inventando sítios para tantos panos,
tuas roupas dobradas fora do quarto:

aloquei cada camisa
como quem se procura
em teu corpo,
solucei - uma a uma -
antecipando a despedida,
aguando teu perfume,
supondo teu ímpeto em desfazer
tentativas.

busquei nos vãos da madeira
as brechas de vida
que refaço: dois dias,
vinte noites, mil e duzentas semanas
espreitando as batidas da porta.

como sufocar tuas veias
para implorar piedade:

aguardar seis horas,
atravessar a sala,
esquentar o café outra
vez.

15 de abr de 2013


tateio no escuro:
sei das lágrimas que caem
sobre a cama
provando sal
e medo

e quero secar teu rosto
porque teu rosto assim, tão puro,
teu rosto afável
dilacera o meu.

eu quis morrer, meu amor,
porque a vida - essa
concretude imperdoável -
não deixa que engula a dor:
e eu quis fazê-la minha,
ganhar a culpa do mundo,
ascender teus olhos úmidos
- lugar de morar
e morrer

e eu quis morrer de amor,
meu amor. te implorar
caridade - não conheci outra forma
de matar o tempo,
de acabar comigo,
cimentar a noite.

eu quis morrer,
meu amor, para descobrir que viver
é arder na ferida,
aprender tua dor
- e a minha
na lassidão das horas.


viver, meu amor,
para tomar tua lágrima:
abreviar o amargo
da boca

não repetir
perdão.

17 de mar de 2013

aprendi o dia em teu rosto:
nomino o sereno nas manhãs úmidas,
invento as tardes de café entre
os braços,
teu calor atravessando a pressa.

deixei a noite amanhecer nos olhos (– quis falar
nesses dois
que decorei.)

aprendi o dia em teu rosto
desde as primeiras manhãs:
gosto de céu
pleno em mim.