19 de abr de 2013

inventário

catapora, dor
de dente,
quatro pés na bunda,
duas bicicletas,
máquina de lavar
roupas,
dezesseis poemas

vinte e quatro
anos

e posso dizer
que consegui, na vida,
uma janela - pequena
vista para o mundo,
carregar
esta pena.

16 de abr de 2013

procurava ocupar o vazio
da estante
inventando sítios para tantos panos,
tuas roupas dobradas fora do quarto:

aloquei cada camisa
como quem se procura
em teu corpo,
solucei - uma a uma -
antecipando a despedida,
aguando teu perfume,
supondo teu ímpeto em desfazer
tentativas.

busquei nos vãos da madeira
as brechas de vida
que refaço: dois dias,
vinte noites, mil e duzentas semanas
espreitando as batidas da porta.

como sufocar tuas veias
para implorar piedade:

aguardar seis horas,
atravessar a sala,
esquentar o café outra
vez.

15 de abr de 2013


tateio no escuro:
sei das lágrimas que caem
sobre a cama
provando sal
e medo

e quero secar teu rosto
porque teu rosto assim, tão puro,
teu rosto afável
dilacera o meu.

eu quis morrer, meu amor,
porque a vida - essa
concretude imperdoável -
não deixa que engula a dor:
e eu quis fazê-la minha,
ganhar a culpa do mundo,
ascender teus olhos úmidos
- lugar de morar
e morrer

e eu quis morrer de amor,
meu amor. te implorar
caridade - não conheci outra forma
de matar o tempo,
de acabar comigo,
cimentar a noite.

eu quis morrer,
meu amor, para descobrir que viver
é arder na ferida,
aprender tua dor
- e a minha
na lassidão das horas.


viver, meu amor,
para tomar tua lágrima:
abreviar o amargo
da boca

não repetir
perdão.