23 de jun de 2015

candeia
gosto de noite
alta
a incendiar as teias

alheia
o tempo arrancado do
tempo
o templo do teu corpo
nu

passeia

a dança dos dedos
nos ombros
o suor
da madeira

floreia
o gosto do gosto
do som
de descobrir teu rosto

aceita
não dar nome ao gosto
do gosto do gosto
do gozo
que o teu céu
clareia

21 de jan de 2015

ainda não é noite
lugar de ligar como sempre
e dizer que não sei muito bem
se dormi aquelas quatro ou cinco horas
com o livro aberto
entre as mãos
se de fato tomei o café aguado
no meio do caminho para paradas
lanches cigarros
estradas para dois lados
pensando ah que metáfora
não ver o fim das estradas
só estradas nenhuma árvore
nenhuma criança sorrindo
pássaros casas bicicletas
nem o céu azul claro
para que eu pudesse falar do céu
na hora do café
voltar para fechar a cortina
usar o cinto de segurança
para além disso não importa
se deixei de ler as placas
se a temperatura está boa
ainda vou para o mesmo lugar
estranhar os paralelepípedos
o gosto da água os grilos o silêncio
entre o barulho dos grilos
as mãos ao telefone
não há mais como contar histórias
de estradas
são novas regras sobre cafés de estradas
e estradas
sobre contar como sempre
sobre voltar a um lugar
não há mais
como sempre

5 de dez de 2014

separação

guardei os vestidos
e dois ou três pares de sapatos

recapitulei o lugar imóvel
dos teus cadernos
os lugares de esquecer
as xícaras
as prateleiras irrepetíveis
em pensamento

gastei minutos devagar:
a mala inacabada diante da porta
o mofo agonizante dos bilhetes
das listas de supermercado
do tom de voz
às segundas-feiras:
o gosto azedo da véspera
molhando a língua.

eu já sabia da ferida
cravada na porta
eu abriria os ruídos
pés sobre paredeso suor dos corredores
no verão

eu já sabia, eu diria,
da demissão do poema.

eu só não sabia
que à beira do fim
fazia mais frio.

20 de jul de 2014

poema para a palestina

mulheres e crianças
e homens e mulheres e crianças
correndo com seus passaportes inviáveis

crianças e homens
e mulheres
atendendo telefonemas letais:
vocês, seu filhos, as próximas
gerações

de homens e mulheres e crianças
estéreis,
bichos sob a cerca encerrada não há
mais lugar nesse mundo
para homens e mulheres
e seus filhos
e seus parentes distantes
não há mais lugar
para cumprir destinos:

há que se cumprir a velocidade da veia
rasgada
derramar o suor
alimentar a terra aos berros

há que saber tocar teu pulso cerrado
contra diagnósticos e bombas
dizendo
não digo vida
digo liberdade não há
arma para desfazer pulsos

mulheres e crianças
e homens
abraçando a terra
dizendo teu nome:

teu sangue a germinar desertos
flor que berra pra nascer
e arde

10 de jun de 2014

tantos copos d'água
nenhuma saliva
que te desaprenda
atrás de mim,
contei três invernos,
a mesma inquietude apressada
em descer e roubar tijolos,
em decorar o ritmo dos dedos
sobre a mesa,
o modo de pedir café,
o gosto de álcool para apressar
a pergunta

sua utilidade precisa
para aguçar as mãos.

atrás de mim,
sei do ócio inventado nas perdas,
essa mania de chutar cacos à revelia
em esperar que a calçada evapore
vidros
que aprenda lições
como se esquecesse

atrás de mim, talvez tenham mudado
os cabelos, a minha saia bordada
as tuas cores em giz,
anúncios de amor
e signos, talvez
a árvore diante da tua casa
não tenho bem certeza
mas continuo com a mesma altura
cuidando pouco das dúvidas
ignorando dívidas
compromissos
prazos de validade
a cantar com os dedos
o gosto úmido do presente

atrás de mim, vim
cruzando dezembros, sentei
em alguma parte
do caminho
a catar-me os pedaços:

a madrugada faminta
do mesmo tapete
a saliva descrita nas maçãs
do rosto
a parede paciente
a revolver veludos


a abarrotar cansaços
e meias-
noites.

18 de mar de 2014

i.

o emocional é fraco,
berrou se desculpando
aos fortes
e aos gordos

mas a lama
é down
azul escuro
maltratado

folhas despedindo galhos
o tremor das pernas
na hora do gozo
essa coisa de cair do salto
o livro imóvel na cabeça
o olhar retilíneo.


ii.

desculpem os exemplos
mas a imensidão
é um buraco

uma vontade débil
de render-se

o saco cheio
de languidez.



iii.

corrijam-me os bons
mas dor é essa ferida
sangue que não pergunta
se quer correr

a pele úmida
que antecipa a vertigem

uma saliva

um tropeço.

2 de jan de 2014

desamparo


a calçada ressona no segundo andar.

mulheres de batom
derramam vinhos clandestinos
à beira de paralelepípedos,
casais de meia idade carregam suas bolsas
de supermercado,
suas dúvidas financeiras
e não me ajudarão.

atravesso a rua
para pedir açúcar:
há uma lágrima de engolir memórias
acendendo os cigarros
da última estante.

às tardes,
sigo quebrando pequenos copos,
gastando as horas em frases de desprezo
que dedico a estranhos:
não posso comprar água em garrafas
enquanto a chuva me derrama
na janela.

mudo cadeiras de lugar,
consolo azulejos
para despovoar cicatrizes

os ponteiros incólumes da parede
teus pés no mesmo número da rua
cinza
de saudade.