24/05/2012
cantamos porque llueve sobre el surco
y somos militantes de la vida
y porque no podemos ni queremos
dejar que la canción se haga ceniza
y somos militantes de la vida
y porque no podemos ni queremos
dejar que la canción se haga ceniza
mario benedetti
descobri tem pouco que passa comigo o mesmo que soube de ti naquele último encontro pela rua. esses nossos cuidados, esse medo de perder quem se ama e hoje eu não posso estar lá. meu pai, meu amor. lembrei de teus olhos enquanto me falavas nesses procedimentos e vi que o mundo mesmo é louco; louco porque nos encontramos, louco por nos deixar os mesmos dramas. louco, generoso e sádico. e pensar que ainda há dois ou três dias te escrevi sobre como é nosso ser humano, sobre nosso dever de cantar. e recordo que disse algo parecido com que a gente se vira por quem ama, encontra força, continua porque somos militantes dessa vida; somos um pouco dos poemas daquele velho uruguaio que quis cantar porque já não bastava o pranto nem a raiva. e já não lembro se retomei aqueles versos guardados porque te encontrei, porque compartimos essas coisas - ou porque compartimos como antes, precisamente como antes - mas sei que me disse: eu também canto. e soube da tua falta ao lembrar que te dizia para poder me repetir: canto, apesar de tudo. e te contei que cantava em silêncio, e chorei toda essa cidade, e me enchi de medo e de amor - esse não tornar em cinzas todas as nossas canções.
em
Porto Alegre
20/05/2012
passeio com minha sede pelas ruas
como quem crê que também são tuas
essas vontades incontidas
que travisto no sorriso do encontro
compartir qualquer bebida
para alcançar tuas mãos
tocar, de leve, teu braço
enquanto rio de teus chistes,
das minhas ganas
falar das árvores que decoram
a vista da janela
– olhar da tua janela
te decorar no teu quarto,
na tua quadra, nessas ruas
corrigir tua distância da minha
ecoar teu gosto no gozo
extasiar os olhos
e esses dias
falando de américa
e de amor
te procurar por aí
e te encontrar dentro de mim
como quem crê que também são tuas
essas vontades incontidas
que travisto no sorriso do encontro
compartir qualquer bebida
para alcançar tuas mãos
tocar, de leve, teu braço
enquanto rio de teus chistes,
das minhas ganas
falar das árvores que decoram
a vista da janela
– olhar da tua janela
te decorar no teu quarto,
na tua quadra, nessas ruas
corrigir tua distância da minha
ecoar teu gosto no gozo
extasiar os olhos
e esses dias
falando de américa
e de amor
te procurar por aí
e te encontrar dentro de mim
28/10/2011
outro dedo de cachaça
cessava o riso
e eu já podia ouvir a rima ruidosa e velha
cessava o riso
e eu já podia ouvir a rima ruidosa e velha
de um rádio que penso em ter visto em alguma casa da infância,
sem poder precisar.
sem poder precisar.
aquelas horas só me faziam analogias
o tempo brincava entre a mudez interrompida pela batida do copo. a mesa, vetusta, era oca; só o velho, recostado ao balcão, acostumara a distinguir entre pedidos, brigas e batidas de angústia. nem sei que barulho acabei por fazer. mas esse copo pequeno, de um rótulo que já prometeu nova vida nas luzes de um microondas, esse copo não faz estrago assim. e a mesa era ruim, de um vermelho descolorido nas traças de um mapa; a mesa era ruim, a madeira era ruim; e essas horas todas, ruidosas. só o velho sabia bem que jeito tem cada amargura - e compartia, toda vez, outro vidro em pedaços.
não passa dia como esse sem marcar qualquer rosto
e eu notei, naquele olhar,
eu notei desesperadamente
o gosto amargo do álcool,
as rugas das mãos,
o vermelho da mesa
provando o gosto da dor.
e eu bebi a vida, devagar.
a vida, que o velho sabia,
tinha o cheiro da madeira
e o peso dos dias
a vida,
de uma cor rubra que insiste,
sobrevivendo a memórias,
pra ainda gritar.
18/05/2011
17/01/2011
05/12/2010
uma mulher morre apedrejada
porque deus criou desejos
para serem soterrados
sob constituições humanitárias
uma mulher morre apedrejada
porque mulheres não falam
porque mulheres não sentem
porque mulheres não gozam
uma mulher morre apedrejada
porque desafia prescrições bélicas
de senhores patriarcais
- e ama
uma mulher morre apedrejada
para lembrar que mulheres serão apedrejadas
todas as vezes
em que decidirem
abandonar seus escombros
uma mulher morre apedrejada
e constrói ruínas
dentro de mim
porque deus criou desejos
para serem soterrados
sob constituições humanitárias
uma mulher morre apedrejada
porque mulheres não falam
porque mulheres não sentem
porque mulheres não gozam
uma mulher morre apedrejada
porque desafia prescrições bélicas
de senhores patriarcais
- e ama
uma mulher morre apedrejada
para lembrar que mulheres serão apedrejadas
todas as vezes
em que decidirem
abandonar seus escombros
uma mulher morre apedrejada
e constrói ruínas
dentro de mim
![]() |
22/11/2010
08/11/2010
as missas dominicais
ainda ensinam,
extensas,
sobre a pureza do vinho
e o milagre
do nascimento.
e eu recordo que aspirei, a vida inteira,
pelos ensinamentos do pai
na hora marcada da ceia
e sobre como procurei acreditar
na história da ressurreição,
do caminho, do pão
e da vida
e não tive, depois disso, muito mais
que um ou dois questionamentos
filosóficos
e não fiz mais que hesitar
quando finalmente ouvi profundidades
sobre a condição humana.
mas eu quis compartilhar destinos
quando tomei escolhas sobre bancos sujos
de rodoviárias
e procurei rememorar mandamentos
na hora da dor não prevista naqueles livros mofados
e suas metáforas de medo.
foram poucas as palavras eruditas que esqueci
para desaprender
minha própria humanidade.
eu precisei rasgar a pele
para conhecer meu alimento.
ainda ensinam,
extensas,
sobre a pureza do vinho
e o milagre
do nascimento.
e eu recordo que aspirei, a vida inteira,
pelos ensinamentos do pai
na hora marcada da ceia
e sobre como procurei acreditar
na história da ressurreição,
do caminho, do pão
e da vida
e não tive, depois disso, muito mais
que um ou dois questionamentos
filosóficos
e não fiz mais que hesitar
quando finalmente ouvi profundidades
sobre a condição humana.
mas eu quis compartilhar destinos
quando tomei escolhas sobre bancos sujos
de rodoviárias
e procurei rememorar mandamentos
na hora da dor não prevista naqueles livros mofados
e suas metáforas de medo.
foram poucas as palavras eruditas que esqueci
para desaprender
minha própria humanidade.
eu precisei rasgar a pele
para conhecer meu alimento.
Assinar:
Postagens (Atom)

