10 de jun de 2014

atrás de mim,
contei três invernos,
a mesma inquietude apressada
em descer e roubar tijolos,
em decorar o ritmo dos dedos
sobre a mesa,
o modo de pedir café,
o gosto de álcool para apressar
a pergunta

sua utilidade precisa
para aguçar as mãos.

atrás de mim,
sei do ócio inventado nas perdas,
essa mania de chutar cacos à revelia
em esperar que a calçada evapore
vidros
que aprenda lições
como se esquecesse

atrás de mim, talvez tenham mudado
os cabelos, a minha saia bordada
as tuas cores em giz,
anúncios de amor
e signos, talvez
a árvore diante da tua casa
não tenho bem certeza
mas continuo com a mesma altura
cuidando pouco das dúvidas
ignorando dívidas
compromissos
prazos de validade
a cantar com os dedos
o gosto úmido do presente

atrás de mim, vim
cruzando dezembros, sentei
em alguma parte
do caminho
a catar-me os pedaços:

a madrugada faminta
do mesmo tapete
a saliva descrita nas maçãs
do rosto
a parede paciente
a revolver veludos


a abarrotar cansaços
e meias-
noites.

Um comentário:

Anônimo disse...

[Nota 524: o estilo dela]

Cola varetas frágeis, montando um jardim tênue de galhos recém arrancados que se equilibram. Muitos; fazem-se entorno.
No jardim de quase-flores, dança erguendo e descendo as mãos, subindo rápido, pausando no alto e voltando a cair depressa - ondas.


olhares de cílios ferventes
lançados em calçadas
e amores
também são sempre ambíguos
feito poema
dela