27 de set. de 2009

e me pôr a pensar que, como a minha farsa, não é só a morte que é indesculpável - e o que faço com toda essa minha estupidez não deixa de ser certa forma de matar-me aos poucos e para logo concluir se, quem sabe, não é essa proporção da morte o que define a própria vida

17 de set. de 2009

talvez confessasse que já não sei mais quantas horas por dia tenho esperado teus passos e há quantos dias têm se repetido a mesma cena insípida de quem tanto quer falar e tão resignadamente cala - de como me expresso mal e desdigo sem jeito os últimos murmúrios - e espero por horas e dias e instantes que tanto quis e tanto, tanto, tanto que fossem todos teus - e no entanto permaneço aqui, parada, porque não sabes de meu tempo e nem de mim e porque me desfaço pacientemente em horas de te ver passar e porque passas - sempre passas - enquanto ainda sou inerte, branca e tão inofensiva, tão renunciável, tão despercebida que já não sei mais contar as horas e as coisas enquanto minhas últimas palavras calam e meu silêncio esmaece o gosto com que passas e transformo em confidências os teus passos distraídos

porque fiz da eternidade minha espera

12 de ago. de 2009

I.
não sei qual a medida de meu rosto. descubro com as mãos as incertezas das formas, vou delineando o desgaste das horas, o instante que insiste, a dificuldade das pálpebras.
foram tão poucas as horas que passaram, mas como me passaram todas elas.

II.
consigo sentir as maçãs do rosto, o formato de meus lábios, o gosto das lágrimas.
tem o mesmo gosto úmido da espera.

III.
ainda pertenço a cada vestígio que reconheço entre meus dedos.
estou inteira - eu, que nem sei o que é tudo em mim.


IV.
meus traços escondem lonjuras

6 de ago. de 2009

pensava na vontade insaciável de te ver. era uma brasa que reascendia do meu depósito inominado de registros permanentes. do desejo mal acabado pensava que me encontrei pensando outra vez. quem sabe é o frio da tua sombra que me faz irresignada, a tua cara virada enquanto eu te admiro, o sentimento sem nome que já chamei de qualquer coisa que não me importava mais (e só não chamei de sentimento). quem sabe é o teu humor gélido que mantém minhas mãos suando frio, teu corpo imóvel diante de meus braços em descontrole, daquela vontade que permanecia já nem só em te ver quando eu já queria te ser inteira. do meu autocontrole em repensar teus movimentos enquanto somes por aí sem mim. da minha risada alta porque agora estou sozinha, do meu corpo vazio que já não se contenta assim tão fácil. da tua resistência que mais alimenta essa coisa sem nome – e me escabela enquanto ainda penso e suo frio e movimento os braços e morro de saudade daquela tua cara, daquele teu desprezo, da minha solidão nefasta atirada num canto do corpo que – eu já nem lembrava - ainda era todo teu

11 de jul. de 2009

e essa letra tão pequena, tímida, como fosse rubra.
essa letra é só inquietude por dentro

10 de jul. de 2009

agora me passava a medida do teu rosto entre meus seios
o conforto disfarçado em rigidez pela batidas na porta
o teu afago rude
a tua cara lavada;

mas ainda sobra um resto de vinho nas taças quebradas
o teu único cigarro subentendido no cinzeiro da sala
e a imensidão do teu culto que não me furtei em compartir

13 de jun. de 2009

8 de jun. de 2009

(mas abano instintivamente pra qualquer lugar. essência. e então deus não é um senhor bondoso me esperando na esquina pra ignorar minhas blasfêmias, para me ler por dentro, para me perdoar indubitavelmente)