22 de mar. de 2010

11 de fev. de 2010

I. quarta xícara de café após a última notícia. não sei o número do dia. algumas conversas intercalam as lamentações ruidosas. quinta xícara desesperada. sou incapaz de naturalizar as perdas. descubro os olhos infantis e alcanço apenas um retrato sobre a caixa, um corpo gélido, um rosto inchado.

II. e o que eu tenho é medo, incontinência, despreparo. sequer um deus para enganar a morte. das vidas grosseiramente talhadas, guardo só incompreensão.


III. dor do verbo interromper.

4 de fev. de 2010

era silêncio quando a chuva quente gretou o vazio, a imensidão do tempo e logo tornou viva minha pele arrepiada. tinha cheiro de terra aquela sensação úmida e minha respiração tranquila de para quem há pouco tão pouco valia suspirar. e era brando o gosto da água em minha língua morna e seu percurso entre meus dentes, a sugestão de meu rosto, o gozo da alma tocada. era doce.

(a chuva, terna, sempre me comove por inteira: o alívio não suporta timidez.)

12 de nov. de 2009

ah, meu coração

ah, meu coração, se soubeste que ainda ontem rolei insone pela última lembrança e mais algumas que inventava para trocar de cena entre teu riso tímido, teu aconchego noturno, a carência da minha manhã mais clara. (já foram tantas xícaras de café em tua homenagem que já não sei se durmo ou mais acordo com a memória de tuas mãos. e já foram tantas delas que não sei se não é tua a minha insônia, meu batimento apressado, minha liquidez. mas pensava - e já foram tantas, tantas, tantas xícaras...)

3 de nov. de 2009

tentei fazer um café mais fraco que o habitual, talvez pela força dos últimos comentários. meus óculos sujos, um pouco de fome, o desespero de uma ficção. a raiva do dia, o aprisionamento, o medo da verdade: eu só queria uma simples ficção. para confirmar os medos e desconfianças todas, não consegui. só tinha comigo uma xícara de café mais fraco, os olhos ardendo pelos óculos de lado, uma ideia. sei pensei em uma pessoa livre – não falava de realidade, do todo, dos diários alheios. ainda me veio qualquer coisa em reproduzir algum diálogo: provavelmente, uma personagem pouco menos indefinida (talvez de óculos sujos ou amargando um café fraco) se encantaria. perguntaria as coisas do ar livre como perguntava o príncipe à raposa que lhe diria que nos tornamos eternamente responsáveis por alguma coisa quando na verdade e tanto mais e ainda pior. mas a minha estória teria o encanto da dúvida, do desejo, da liberdade. liberdade invejada; uma liberdade que é minha vontade de sê-la. e, se tivesse um fim, qualquer coisa feliz, uns óculos mais limpos, um café mais forte. uma pergunta de como fazer a vida - ser. de como era a casa, o estar, as roupas - de que se faziam os sonhos dessa personagem livre. mas era uma ideia interminada, qualquer coisa sem meio, sem caminho. só de dúvida. fim do café e desisti, definitivamente, de escrever. não saberia trilhar o caminho, acender um sentido, parecer história. ficou a pergunta intrigada de como e a vontade de entender a resposta que almejei: - mas não há o que ter comigo. a liberdade sou eu.

27 de set. de 2009

e me pôr a pensar que, como a minha farsa, não é só a morte que é indesculpável - e o que faço com toda essa minha estupidez não deixa de ser certa forma de matar-me aos poucos e para logo concluir se, quem sabe, não é essa proporção da morte o que define a própria vida

17 de set. de 2009

talvez confessasse que já não sei mais quantas horas por dia tenho esperado teus passos e há quantos dias têm se repetido a mesma cena insípida de quem tanto quer falar e tão resignadamente cala - de como me expresso mal e desdigo sem jeito os últimos murmúrios - e espero por horas e dias e instantes que tanto quis e tanto, tanto, tanto que fossem todos teus - e no entanto permaneço aqui, parada, porque não sabes de meu tempo e nem de mim e porque me desfaço pacientemente em horas de te ver passar e porque passas - sempre passas - enquanto ainda sou inerte, branca e tão inofensiva, tão renunciável, tão despercebida que já não sei mais contar as horas e as coisas enquanto minhas últimas palavras calam e meu silêncio esmaece o gosto com que passas e transformo em confidências os teus passos distraídos

porque fiz da eternidade minha espera