29 de ago. de 2010

te buscava incessante enquanto recitava mentalmente sobre o quanto te procuro e nada encontro - e quando não surges, nessas horas, desvendo poesias: em cada uma te inauguro.


para lembrar de ana c.

17 de mai. de 2010

para ler ao som de chico buarque: trocando em miúdos
02h23


traguei um vinho seco
com fervor similar ao que quebrava taças
e pensava em braços
sobre os quais apoiei,
inútil, a cabeça
e as manhãs dolorosas
de tuas partidas.

me alimentava um vazio
amargo
que apenas cabe
aos de desejos
incontidos
e de ilusões
grosseiras.

não tive vontade
que ultrapassasse
teu corpo.

guardei inteiras
as deformidades
do pescoço,
dos vidros partidos,
das paredes dessa casa:

tem a forma
da tua ausência
a espoliação da memória.

22 de mar. de 2010

11 de fev. de 2010

I. quarta xícara de café após a última notícia. não sei o número do dia. algumas conversas intercalam as lamentações ruidosas. quinta xícara desesperada. sou incapaz de naturalizar as perdas. descubro os olhos infantis e alcanço apenas um retrato sobre a caixa, um corpo gélido, um rosto inchado.

II. e o que eu tenho é medo, incontinência, despreparo. sequer um deus para enganar a morte. das vidas grosseiramente talhadas, guardo só incompreensão.


III. dor do verbo interromper.

4 de fev. de 2010

era silêncio quando a chuva quente gretou o vazio, a imensidão do tempo e logo tornou viva minha pele arrepiada. tinha cheiro de terra aquela sensação úmida e minha respiração tranquila de para quem há pouco tão pouco valia suspirar. e era brando o gosto da água em minha língua morna e seu percurso entre meus dentes, a sugestão de meu rosto, o gozo da alma tocada. era doce.

(a chuva, terna, sempre me comove por inteira: o alívio não suporta timidez.)