tantos copos d'água
nenhuma saliva
que te desaprenda
10 de jun. de 2014
atrás de mim,
contei três invernos,
a mesma inquietude apressada
em descer e roubar tijolos,
em decorar o ritmo dos dedos
sobre a mesa,
o modo de pedir café,
o gosto de álcool para apressar
a pergunta
sua utilidade precisa
para aguçar as mãos.
atrás de mim,
sei do ócio inventado nas perdas,
essa mania de chutar cacos à revelia
em esperar que a calçada evapore
vidros
que aprenda lições
como se esquecesse
atrás de mim, talvez tenham mudado
os cabelos, a minha saia bordada
as tuas cores em giz,
anúncios de amor
e signos, talvez
a árvore diante da tua casa
não tenho bem certeza
mas continuo com a mesma altura
cuidando pouco das dúvidas
ignorando dívidas
compromissos
prazos de validade
a cantar com os dedos
o gosto úmido do presente
atrás de mim, vim
cruzando dezembros, sentei
em alguma parte
do caminho
a catar-me os pedaços:
a madrugada faminta
do mesmo tapete
a saliva descrita nas maçãs
do rosto
a parede paciente
a revolver veludos
a abarrotar cansaços
e meias-
noites.
contei três invernos,
a mesma inquietude apressada
em descer e roubar tijolos,
em decorar o ritmo dos dedos
sobre a mesa,
o modo de pedir café,
o gosto de álcool para apressar
a pergunta
sua utilidade precisa
para aguçar as mãos.
atrás de mim,
sei do ócio inventado nas perdas,
essa mania de chutar cacos à revelia
em esperar que a calçada evapore
vidros
que aprenda lições
como se esquecesse
atrás de mim, talvez tenham mudado
os cabelos, a minha saia bordada
as tuas cores em giz,
anúncios de amor
e signos, talvez
a árvore diante da tua casa
não tenho bem certeza
mas continuo com a mesma altura
cuidando pouco das dúvidas
ignorando dívidas
compromissos
prazos de validade
a cantar com os dedos
o gosto úmido do presente
atrás de mim, vim
cruzando dezembros, sentei
em alguma parte
do caminho
a catar-me os pedaços:
a madrugada faminta
do mesmo tapete
a saliva descrita nas maçãs
do rosto
a parede paciente
a revolver veludos
a abarrotar cansaços
e meias-
noites.
2 de jan. de 2014
desamparo
a calçada ressona no segundo andar.
mulheres de batom
derramam vinhos clandestinos
à beira de paralelepípedos,
casais de meia idade carregam suas bolsas
de supermercado,
suas dúvidas financeiras
e não me ajudarão.
atravesso a rua
para pedir açúcar:
há uma lágrima de engolir memórias
acendendo os cigarros
da última estante.
às tardes,
sigo quebrando pequenos copos,
gastando as horas em frases de desprezo
que dedico a estranhos:
não posso comprar água em garrafas
enquanto a chuva me derrama
na janela.
mudo cadeiras de lugar,
consolo azulejos
para despovoar cicatrizes
os ponteiros incólumes da parede
teus pés no mesmo número da rua
cinza
de saudade.
2 de dez. de 2013
noticiário
pretos e pobres entraram em um shopping
que como todos os shoppings
não levantou tijolos para pretos e pobres
celas foram fundidas para pretos e pobres
& também para aqueles brancos pobres
que o baiano já cantou que de tão pobres
são quase todos
pretos
muitos pretos, todos juntos,
ofendem as paredes
brancas: humilhem-nos
retirem-nos
chamem de averiguações
maltratem os pretos e pobres pelo crime imperdoável
de terem ultrapassado os partos
de suas mães pretas
de não terem calado ainda cheios
de sangue
de terem tocado tambores
de descerem os morros com seus funks
resguardem-nos do medo
que temos de pretos
e pobres
porque não nos importa se pretos e pobres
sabem do que é medo
se os pretos e pobres
não devoraram nossas sacolas
novas
como canibais
se os pretos e pobres cometeram qualquer coisa
porque afinal são pretos e pobres
e não há crime pior do que cometer ser preto
sempre preto e tão pobre
matem os pretos e pobres
não temos culpa se são todos pretos e pobres
são apenas pretos e pobres
todos pretos e pobres
pretos e pobres
pretos e pobres
que como todos os shoppings
não levantou tijolos para pretos e pobres
celas foram fundidas para pretos e pobres
& também para aqueles brancos pobres
que o baiano já cantou que de tão pobres
são quase todos
pretos
muitos pretos, todos juntos,
ofendem as paredes
brancas: humilhem-nos
retirem-nos
chamem de averiguações
maltratem os pretos e pobres pelo crime imperdoável
de terem ultrapassado os partos
de suas mães pretas
de não terem calado ainda cheios
de sangue
de terem tocado tambores
de descerem os morros com seus funks
resguardem-nos do medo
que temos de pretos
e pobres
porque não nos importa se pretos e pobres
sabem do que é medo
se os pretos e pobres
não devoraram nossas sacolas
novas
como canibais
se os pretos e pobres cometeram qualquer coisa
porque afinal são pretos e pobres
e não há crime pior do que cometer ser preto
sempre preto e tão pobre
matem os pretos e pobres
não temos culpa se são todos pretos e pobres
são apenas pretos e pobres
todos pretos e pobres
pretos e pobres
pretos e pobres
19 de abr. de 2013
inventário
catapora, dor
de dente,
quatro pés na bunda,
duas bicicletas,
máquina de lavar
roupas,
dezesseis poemas
vinte e quatro
anos
e posso dizer
que consegui, na vida,
uma janela - pequena
vista para o mundo,
carregar
esta pena.
de dente,
quatro pés na bunda,
duas bicicletas,
máquina de lavar
roupas,
dezesseis poemas
vinte e quatro
anos
e posso dizer
que consegui, na vida,
uma janela - pequena
vista para o mundo,
carregar
esta pena.
16 de abr. de 2013
procurava ocupar o vazio
da estante
inventando sítios para tantos panos,
tuas roupas dobradas fora do quarto:
aloquei cada camisa
como quem se procura
em teu corpo,
solucei - uma a uma -
antecipando a despedida,
aguando teu perfume,
supondo teu ímpeto em desfazer
tentativas.
busquei nos vãos da madeira
as brechas de vida
que refaço: dois dias,
vinte noites, mil e duzentas semanas
espreitando as batidas da porta.
como sufocar tuas veias
para implorar piedade:
aguardar seis horas,
atravessar a sala,
esquentar o café outra
vez.
da estante
inventando sítios para tantos panos,
tuas roupas dobradas fora do quarto:
aloquei cada camisa
como quem se procura
em teu corpo,
solucei - uma a uma -
antecipando a despedida,
aguando teu perfume,
supondo teu ímpeto em desfazer
tentativas.
busquei nos vãos da madeira
as brechas de vida
que refaço: dois dias,
vinte noites, mil e duzentas semanas
espreitando as batidas da porta.
como sufocar tuas veias
para implorar piedade:
aguardar seis horas,
atravessar a sala,
esquentar o café outra
vez.
17 de mar. de 2013
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