20 de mai. de 2012

deixei tuas roupas na calçada

despi teus versos
o gosto das mãos em meu rosto
as datas
as tardes
os poemas

na porta de casa,
a tua partida
atravessada na garganta

17 de jan. de 2011

teu sopro continua
entre a boca umedecida
e a temperatura de meu corpo
impuro

(ainda minto enquanto recuso
a impressão da pele)

e venta,
para que eu exista
do que restou da chuva:

a tua atmosfera
inundada de memória
e frio

5 de dez. de 2010

uma mulher morre apedrejada
porque deus criou desejos
para serem soterrados
sob constituições humanitárias

uma mulher morre apedrejada
porque mulheres não falam
porque mulheres não sentem
porque mulheres não gozam

uma mulher morre apedrejada
porque desafia prescrições bélicas
de senhores patriarcais
- e ama

uma mulher morre apedrejada
para lembrar que mulheres serão apedrejadas
todas as vezes
em que decidirem
abandonar seus escombros

uma mulher morre apedrejada
e constrói ruínas
dentro de mim





8 de nov. de 2010

as missas dominicais
ainda ensinam,
extensas,
sobre a pureza do vinho
e o milagre
do nascimento.

e eu recordo que aspirei, a vida inteira,
pelos ensinamentos do pai
na hora marcada da ceia

e sobre como procurei acreditar
na história da ressurreição,
do caminho, do pão
e da vida

e não tive, depois disso, muito mais
que um ou dois questionamentos
filosóficos

e não fiz mais que hesitar
quando finalmente ouvi profundidades
sobre a condição humana.

mas eu quis compartilhar destinos
quando tomei escolhas sobre bancos sujos
de rodoviárias

e procurei rememorar mandamentos
na hora da dor não prevista naqueles livros mofados
e suas metáforas de medo.

foram poucas as palavras eruditas que esqueci
para desaprender
minha própria humanidade.


eu precisei rasgar a pele
para conhecer meu alimento.

29 de out. de 2010

tenho segurado estes dias
como contenho expectativas,
uma a uma,
a observar teus passos
e gravar teu sorriso
mais apressado:
- também vou bem,
 vou bem, e então
(sente aqui ao meu lado
que eu quero cantar o refrão
que me lembra você).

e tenho fingido, obtusa,
que não decorei essas voltas,
as passadas inteiras,
a poesia guardada
em olhos que eu descreveria
anatomicamente,
disfarçando, em voz alta,
o lirismo piedoso
da memória.

tenho aniquilado desejos:

não quero pensar
se você soubesse
o que guardo sob frases de encontro
se você pensasse
sorrindo, em premissas não correspondidas
se você notasse,
com esses olhos que descrevo,

que meu silêncio quer
te escrever inteiro.

10 de out. de 2010

se sou tão eu enquanto me vejo agora de olhar perdido, remexendo os cabelos para acordar tua imagem forte (como também eram fortes teus braços em minha volta e como era macio ainda tocá-los feito boba, tão perdida em tuas dobras) e exausta em teu corpo tão teu, que inominado e solto como tu tes fostes e de suor amargo como me amargou tua ida. e sou tão eu que me percebo sacudindo cabelos para abafar tua memória - porque é de mim guardar os teus detalhes, teus traços firmes, o cheiro do meu quarto quando meu quarto era teu e eu ainda era a cama, o ruído, a espera. e sou tão eu que ainda espero mexendo em cabelos e restos enquanto, depois de ti, só me sobrou (mãos, dedos, cabelos, ânsia, quarto) tua falta.