19 de jun. de 2012

é de música a tua ausência

dezembro de 2010:

a gente sempre dançava abraçados no meu apartamento
e jurávamos um bocado de belezas para a vida
(ainda juramos toda vez)

até que o otávio partiu:

almofadas sujas, livros empoeirados, aquele cedê gravado de canções que guardei com um carinho bonito, como é o bonito o sorriso que fecha os olhos para depois ouvir caetano com a intensidade do abraço. era o que tinha ficado. observei aquelas caixas que sempre nos abraçavam enquanto cantávamos que alguma coisa acontece no meu coração e nos jurávamos cruzar avenidas entre aquelas promessas de eternidade que nunca precisamos cumprir - a verdade é que sempre precisamos de tão pouco, fomos nós mesmos com tão pouco, que dessas amizades até se diz que são inteiras, que são plenas como os poemas que os minutos recitam para amaciar essa distância que é tempo, mapa, escolha: uma força semelhante àquela que a gente acreditou que tinha - e tínhamos - entoando músicas do chico entre tantas aspirações e aqueles sonhos que só comparte quem aprendeu a dançar de olhos fechados


(há quase setecentos dias escuto aquelas caixas
agraciando as  horas.
alimento de que me permito viver,
momento por momento,
indefinidamente)


sonho
e é de música a tua ausência.

5 de jun. de 2012

passeio com minha sede pelas ruas
como quem crê que também são tuas
essas vontades incontidas
que travisto no sorriso do encontro

compartir qualquer bebida
para alcançar tuas mãos

tocar, de leve, teu braço
enquanto rio de teus chistes,
das minhas ganas

falar das árvores que decoram
a vista da janela
– olhar da tua janela

te decorar no teu quarto,
na tua quadra, nessas ruas

corrigir tua distância da minha
ecoar teu gosto no gozo

extasiar os olhos
e esses dias
falando de américa
e de amor



te procurar por aí
e te encontrar dentro de mim

20 de mai. de 2012

deixei tuas roupas na calçada

despi teus versos
o gosto das mãos em meu rosto
as datas
as tardes
os poemas

na porta de casa,
a tua partida
atravessada na garganta

17 de jan. de 2011

teu sopro continua
entre a boca umedecida
e a temperatura de meu corpo
impuro

(ainda minto enquanto recuso
a impressão da pele)

e venta,
para que eu exista
do que restou da chuva:

a tua atmosfera
inundada de memória
e frio

5 de dez. de 2010

uma mulher morre apedrejada
porque deus criou desejos
para serem soterrados
sob constituições humanitárias

uma mulher morre apedrejada
porque mulheres não falam
porque mulheres não sentem
porque mulheres não gozam

uma mulher morre apedrejada
porque desafia prescrições bélicas
de senhores patriarcais
- e ama

uma mulher morre apedrejada
para lembrar que mulheres serão apedrejadas
todas as vezes
em que decidirem
abandonar seus escombros

uma mulher morre apedrejada
e constrói ruínas
dentro de mim